segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Olho para o relógio. Nove da manhã. Eu não deveria ter vindo, a cadeira é dura. Busco na mochila o caderno, mas o material ainda é o de ontem. Não importa, me sinto como ontem, me sinto como amanhã. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, segunda. São todos iguais, distingo-os pelo que vejo pela janela. Hoje tem sol, ontem nublou. Seguro o bocejo, não quero estampar o tédio no meu rosto. Não consigo, mas o professor nem vê, ele nem me vê. Ele não vê ninguém. Não vê Camila, nem Rodrigo, nem Tiago, nem Letícia. Ele vê Fulanos e Beltranas e talvez ele mesmo em um espelho imaginário. Concentro por um instante, mas logo vejo que preciso cortar as unhas, comprar pão, levar a vó no médico. Olho para um lado, a colega busca as pontas duplas do cabelo. Não deve ter nenhuma, ela já procurou ontem, procurou semana passada. Do outro lado, o colega desenha no caderno algo que não consigo decifrar. Aperto os olhos, o que estou procurando mesmo? Passam as pessoas pela janela, eu as acompanho com o olhar, elas se perdem dentro dos prédios. Acaba aula, acaba. Ela vai acabar, eu sei, o desejo é inevitável. Ela vai acabar, eu vou comer, vou ao banheiro, vou para outra aula, almoço em casa, etc. E aí vou deitar. E é tudo tão igual que eu acho que o esquisito ali da esquerda faz tudo igual também e afinal nem existe gente esquisita. Somos todos iguais. Eu queria ser ator ou dono de zoológico, como são surreais os sonhos das crianças. Faculdade, casamento, filhos, talvez um intercâmbio aí no meio, ou um divórcio. A menina ali bem da frente levanta a mão e comenta que a narrativa intimista do livro deixa de fora uma concretude necessária à descrição de um momento histórico cujos personagens... fome. A tênue linha entre a fome e o tédio. Olho para o relógio, o professor levanta a voz, busca entra a sua platéia um rosto mais interessado. Desvio de seu olhar com uma falsa anotação, ele faz uma pergunta para aquele cara que está mais no fundo dormindo. Alguns riem, outros fazem cara de indignação. O professor fala mais alto, o colega não sabe responder, mas se tem uma coisa que ele sabe é que o colesterol faz mal à saúde, que temos que nos exercitar pelo menos três vezes por semana, comer pouco sal, pouco açúcar, fazer de tudo para ter uma velhice plena. Olho para o relógio mais uma vez, que horas eram antes? Agora são nove horas e quinze minutos. Vejo que os colegas já deram início a mais um dos nossos rituais, me pergunto se na China ou no Egito os alunos fazem o mesmo, começam a guardar seus pertences para mostrar ao professor que está na hora de ele encerrar o seu solilóquio. E eu mais uma vez lembro que acordei já sabendo como iria terminar o dia, sabia como seria a aula, que o mais inesperado ao longo do dia e ao longo dos meus dias é o sabor do café, amargo ou doce. A impressão que tenho é que a rotina se agarrou às minhas entranhas como uma parasita, sugando as minhas forças, deixando o banal. Fecho meus olhos esperando enxergar um mapa traçado, meus dias todos contados, mas estranhamente me deparo com nada. Coloco a mochila no ombro, esse ombro dói, passo para o esquerdo, talvez eu vá ao banheiro antes de comer alguma coisa. Olho para os lados, todos já estão nervosamente checando os seus celulares. Tudo segue o seu curso e a volta é sempre de 360 graus. Garanto que aqui não sou o único a pensar: Emma Bovary c’est moi.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pontuação

Na tentativa de responder todas as interrogações, acabei com muitas reticências.

domingo, 28 de março de 2010

Daydreamer.

And when I miss you
I close my I eyes and I see you.
Your smile makes me smile
Your laugh makes me laugh
And my tears they all dry
And I am happy one more time.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Indiferença

Ver, mas não ver. Não sentir, só desdenhar. Ouvir, mas não ouvir
É o estado de graça das criaturas não-superiores e não-psicopatas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Fading Away

Quando acordei, já não o encontrei. Ainda sonolenta, tateei o seu lado na cama e os lençóis nem estavam mais deformados pelo peso do seu corpo. Esfreguei os olhos tentando melhorar a visão ainda embaçada e sentei-me na cama. Busquei-o pelo quarto pouco iluminado e certifiquei-me da sua ausência. Incrédula, fechei os olhos e aspirei com força para que o seu cheiro, único e inconfundível, pudesse penetrar as minhas narinas. Entretanto, nada senti. E nada mais senti, nem angústia, nem desespero, parecia que a sua partida era algo natural e a incredulidade tornou-se conformismo. Andei pela casa e nela não havia mais nada dele. Seu riso, sua voz e seu cheiro haviam sido engolidos pela sobriedade da rotina. Em mais uma tentativa de encontrar-lo, cerrei os olhos e busquei-o em meus pensamentos. Sua imagem já embaçada e confusa ia, pouco a pouco, desfigurando-se e direcionando-se lentamente para os locais mais recônditos da minha memória.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A Half-Read Book

And I think that you are like a good book I have left half-read: I am eager to know what is coming next, but I still fear it can ruin what I have already read.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Marionette Show

I feel my restless mind will never match the steadiness of life.
Have it all been rehearsed? Or is it just a déjà vu?
It is just because I feel I live the same old chapter of a slow-paced book.
I make an effort not to believe that is all it is ought to be
I feel I am in a marionette show and even if I am the most resigned
The strings that move me up and down
The strings that take me back and forth
They will be the same to strangle me.

sábado, 7 de novembro de 2009

A Aliança

Acordou naturalmente e feliz por não ter sido despertado pelo celular e, ainda se espreguiçando, tateou a mesa de cabeceira. Tateou, tateou e nada. Esfregou os olhos, resmungou alguma coisa e se levantou para abrir janela. Com a luz do sol invadindo o quarto e iluminando o corpo de Fernanda, ele se dirigiu à mesinha onde deveria estar a aliança. Olhou nos arredores e nada, abriu a gavetinha e nada, passou a procurar por todo o chão do quarto, olhou embaixo da cama, levantou tapetes e nada. Não estava lá e naquele momento já estava bem acordado para perceber a gravidade da situação.
- Volta pra cama, paixão - disse Fernanda, com a voz sonolenta. Ele, entretanto, não tinha ouvidos para ela. Revirava os bolsos das calças, virava a mala de cabeça para baixo, abria as gavetas e as portas do guarda-roupa repetidamente e chegou a procurar dentro de sapatos. O desespero se transformava em um suor quente que escorria pela sua face e em um tremor que tomava conta de suas mãos. “Puta que pariu!”, pensou ele parado no meio do quarto enquanto tentava inutilmente reconstituir os seus passos do dia anterior. Não conseguia pensar em como poderia ter perdido o anel – chegara em São Paulo havia três dias, falsa viagem de negócios, a amante é que morava providencialmente em outra cidade. Não, a aliança não tinha saído do quarto em nenhum momento e o vôo de volta para casa era em 5 horas. O que ele diria para a esposa?
Talvez encontrar a desculpa não fosse assim tão difícil se ele já não tivesse inventado outras tantas em outras viagens. A aliança já tinha caído no ralo do banheiro, já tinha sido roubada e inclusive engolida pelo cachorro de um amigo. A mulher aceitara essas explicações sem apresentar nenhum questionamento. Dessa vez, entretanto, ele não conseguia pensar em nada que explicasse o seu retorno para casa sem a aliança. E ele tinha a melhor esposa do mundo, dedicada com ele e com as crianças, exímia dona de casa, bonita e sempre impecável. Então por que a amante? Isso era claro, esposa era esposa, a outra era a outra. Lembrou-se que ela o esperaria como sempre com um jantar delicioso, se lembrou que ela ligava pontualmente às 18h todos os dias em que ele estava fora, assim ele não precisava ligar e nem se preocupar com uma ligação inoportuna.
Fernanda acordou e ele nem lhe deu atenção, resolveu sair e perguntar na portaria do prédio, nos restaurantes onde tinham jantando, em todos os lugares onde pode lembrar. Nada, era inútil, havia perdido a aliança. “Imbecil!”- falou alto, recebendo olhares de estranhamento dos vizinhos que estavam com ele no elevador. Voltou para o apartamento e imaginou a situação: ele diria que tinha perdido a aliança, a esposa prontamente desconfiaria e exigiria melhores explicações, ele, já demonstrando nervosismo, seria incapaz de apresentar qualquer justificativa decente e entregaria anos de viagens falsas e gastos excessivos com o que ele sempre chamara de “investimentos profissionais”. Ela choraria e ameaçaria ir embora, gritaria impropérios e ele teria que aceitar porque a culpa era toda dele. “Imbecil!”.
Foi embora brigado com a amante, sabia que ela o tinha xingado muito, mas a preocupação com a volta para casa era tanta que ele não ouviu uma palavra sequer. No avião, pensou que talvez devesse ter tentado comprar outra em São Paulo, mas sabia que a esposa era observadora e perceberia qualquer mínima diferença. Será que não tinha procurado direito? Já era tarde demais, suava muito e a aeromoça perguntou se ele estava se sentindo bem. “Medo de avião”, ele respondeu. Chegou em Porto Alegre e apanhou um táxi para casa. O momento do confronto estava próximo. Ela perceberia na mesma hora.
Abriu a porta de casa e a esposa desceu correndo as escadas. “Meu amor!” – ela disse – “Bastam poucos dias para eu quase morrer de saudade!” Deu um longo abraço no marido, contou algumas novidades e o achou estranho.
- Tudo bem?
- É... mais ou menos, meu amor. Vou te dizer agora, antes que tu pergunte, olha só – falou mostrando a sua mão – perdi a aliança, foi quando eu fui jantar na casa do meu colega e acho que a minha mão estava...
- Ah, tudo bem, querido – disse ela, dando um tapinha na bochecha do marido – a gente manda fazer outra pra ti.
Quando ela virou as costas, ele fechou os olhos e respirou com alívio. Finalmente largou a mala e, enquanto se dirigia ao quarto, contemplou a perfeita organização da casa. Chão encerado, almofadas metodicamente arrumadas no sofá, a cama impecavelmente feita e o banheiro perfumado. Ela sabia que ele gostava da casa em ordem. Não percebeu que o rolo do papel higiênico encontrava-se do mesmo tamanho e que o tubo de pasta de dente continha a mesma quantidade de pasta. Foi tomar banho e nem percebeu que, na verdade, estava tudo do mesmo jeito que ele havia deixado.

domingo, 18 de outubro de 2009

Nothing's changed.

My life has changed
In so many ways
I cannot believe
That I'm still the old same.

domingo, 11 de outubro de 2009

Saudade

É pior que a angústia que aperta o peito
Que se estende por noites e que para o tempo.
É pior que sentir o coração quebrado
Estilhaçado em pedaços difíceis de remontar.
É pior que trilhar caminho obtuso
Arrependimento doído num passado perdido.

É pior que qualquer sentimento obscuro
É não ter solução, é ignorar a razão.
Pior que qualquer sofrimento agudo
Que rápido derruba, mas que o tempo dissipa
É a saudade constante, corroendo por dentro,
Secando as lágrimas e ensinando a lição
De que ela é eterna e de impossível extinção.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

( I can get) Satisfaction

Cansei. Cansei de ser reclamona, de ser insatisfeita com as coisas. A insatisfação é um fantasma que me assombra, mas tenho que me lembrar de que não acredito em fantasmas. Penso às vezes o quanto da vida eu perco fazendo reclamações, querendo ter o que não tenho, querendo ser o que não sou. A faculdade é sempre um saco, o trabalho é monótono, o corpo não agrada ao espelho. É sempre assim e sempre será. Não existe o suficiente, sempre quero mais, todo mundo sempre quer mais. Mas Cazuza estava certo, o tempo realmente não para. A gente nem percebe, mas cada minuto é precioso, o agora é muito efêmero, nada tem volta. Tudo passa, sempre. Não é falta de ambição, é a capacidade de encontrar um sentido no caminho escolhido, não pensar naquele que a gente deixou passar. A vida é feita de escolhas, por mais piegas que isso possa parecer. As escolhas nem sempre são as mais acertadas? Acontece. Ninguém nunca nasceu sabendo, é tomando tombos que a gente aprende a levantar. O importante é deixar o passado lá atrás, mas sem ter medo de ao longo da caminhada dar uma olhada para trás e sorrir. Aconteceu, cresci, segui. O futuro? Sim, deixa ele pra frente. Alguém uma vez disse “deixa a vida me levar” e isso é tão bom. Viver o futuro é viver o presente com angústia. Deixa que a vida nos leve, nem tudo está sob o nosso controle – contanto que se mantenha sempre a cabeça no lugar e os pés nos chão.A rotina é cansativa, ela suga as nossas forças, testa nossa capacidade de sobrevivência. Mas, como disse Clarice Lispector, a vida é como um soco no estômago. E é mesmo. Viver achando que tudo sempre poderia ser diferente não vai atenuar essa dor, só vai fazer dela uma dor permanente. Existe algo de bom em se conformar, não em ser conformista, mas em ser feliz com as coisas como elas estão, aproveitar que cada momento é insubstituível. A insatisfação traz aquele aperto chato no peito, aquele que a gente não resolve nunca, porque a satisfação plena é inalcançável. A gente vive numa busca constante pela felicidade, pelos mais diferentes tipos de realização. Mas por que buscar e não viver? Por que o que temos agora não é felicidade? Eu cansei disso. Chega de reclamar, chega de desejar hoje o que só se pode ter amanhã, chega de querer ser aquilo que não sou. Chega. Eu quero me satisfazer com o que vivo agora. Eu quero mesmo é ser feliz agora.

domingo, 27 de setembro de 2009

She

As she gets closer to me I start feeling butterflies in my stomach. She looks mysterious today, I think it is because of her sunglasses, I had never seen her in a sunny day before. She walks beautifully as her long straight highlighted hair swings from side to side, along with the warm breeze of spring time. The pair of jeans she is wearing makes her hips look curvier as if she was trying to disguise her petit figure. I see her turning her eyes towards me, but they never look straight to me, I feel them over my head and I make a fool of myself because I cannot help staring at her. She passes by me in a few seconds which I feel like heaven’s eternity. I remain sat in the park bench, she has got me paralyzed and I miss her disappearance along the way. When I finally wake from my daytime dream, she is already gone. She will be back, she always does. I keep her image in my head for as long as possible, but it is never long enough. She is everything I have ever wanted to have – I did not get to see her dark brown eyes today – she is all I could ever dream about – she does know how much I care – she is just everything I have ever wanted to be.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Mecanização

Após sucessivas quedas
Já não me cansa levantar
Descobri dentro de mim
Um ser inorgânico
Incapaz de reagir
Incapaz de se mostrar.

O remorso se dissipa
E as mágoas nem mesmo alcançam
Os meus meios mecânicos:
Pelos olhos ressecados
Pelos filtros auditivos
Nada passa, tudo desmancha.

Retrocesso instintivo
Rumo à inércia progressiva.
Pessoas apagadas tal qual memória deletada
E o humano que sufoca
Em meio a fios avermelhados
Só lamenta ter chegado
Ao triste resultado
De egocêntrico aprendizado: indiferença.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Guerra

Ela me suga as forças
Ela me fraqueja as pernas
Não há trégua
Não há bandeira branca
E entre mortos e feridos
Sobrevivo bravamente
À rotina dos meus dias.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Until the masks fall off (2)

There is only one case in which the mask should be kept: when there is nothing behind it. When you realize you’ve been misled by your own lies and that there is nothing but shallowness behind your fake smile, the mask ought to be glued. Being nothing besides what you show to people in even more embarrassing than being something and not showing it.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Abstinência

Sabia que tu viria até aqui, até que tu demorou bastante, sim, eu vi as tuas mensagens na secretária eletrônica, é que eu não quis te ligar de volta e a verdade é que quando eu via que era tu que tava me ligando eu simplesmente preferia não atender, não quero mais nem ouvir a tua voz, mas como tu já tá aqui é melhor tu ouvir tudo o que eu tenho pra te dizer, eu sigo não querendo nem ouvir a tua voz, então só me ouve, tá bom, vai lá pegar um copo de suco, espera, não tem mais, pega refri mesmo, bota gelo então, ora essa! olha, normal, né? tu já reclamando, eu cheguei a conclusão que tu é que nem criança pequena, sabe? a gente acha bonitinho, fofinho e acaba fazendo as vontades até que aquela coisinha bonitinha toma conta da gente, tu é bem assim, não consegue ouvir um não, na primeira negativa já faz birra e assim é, daí tu consegue tudo o que quer, eu não conseguia te dizer que não e dizia que sim e tudo girava em torno disso, te agradar, te deixar feliz, “ai, ele não pode ficar brabo, ai, se ele vê isso vai brigar comigo”, verdade sim, eu tinha medo de ti, pode uma coisa dessas? se tu não tá entendendo eu te dou outro exemplo, lembra do Zipo? coisa querida aquele cachorro, mas a gente mimou ele, e ele mijava no tapete da cozinha e a gente brigava com ele, ele ia lá no outro dia e mijava de novo, até que chegou um dia que a gente só forrou o tapete pra ele, ele tomou conta, a gente teve até que se desfazer do pobrezinho, sim, é tu sim, que nem o Zipo, impondo vontades, criança mal-criada, só que eu achava que não podia me desfazer de ti, é que eu não conseguia, mas é que na verdade nem passava pela minha cabeça, por um tempo eu achei que não existia vida sem ti, como se a gente tivesse nascido grudado, mas não, que absurdo! Sim, sim, eu sei que tudo começou muito cedo, é, a gente se criou junto, mas tu não vai conseguir me comover, eu já te conheço do avesso, eu sei que isso aí é conversa, não consegue viver sem mim porque é cômodo, né? é, deve ser bom mesmo ter uma pessoa tentando te agradar 24h por dia, eu não tô exagerando, é verdade, é, eu tirei todas as fotos, todinhas, pode olhar, não tem vestígio teu, seria melhor se tu não tivesse vindo, vai ficar agora um pouco do teu cheiro, e tu lembra, claro, quando a gente decidiu parar de fumar, né? e agora que eu me dei conta do absurdo da gente ter um cachorro chamado Zipo, naquela época a gente não ficava perto de ninguém que tava fumando para não ficar com vontade, e que vontade desgraçada, eu tenho ainda vontade, mas é a mesma coisa, eu tirei os teus vestígios pra perder a vontade de ti, pra te esquecer, e aí a gente queria sair e comprar cigarro, mas acabava não indo porque lembrava da respiração ofegante e dos dentes amarelados e por isso que às vezes eu pego o telefone, mas não ligo porque eu lembro que já to cansada de chorar e pra passar a vontade eu saio, vou nem que seja sozinha no cinema, eu vou dar uma caminhada e eu até choro, mas eu choro de felicidade por ter feito a coisa certa, e volto pra casa e já esqueci que ia te ligar, e que nem os isqueiros e cinzeiros que joguei fora, eu coloquei aquelas fotos todas no lixo e, sim, sim, que eu fico me batendo nas paredes com vontade de ti, mas eu deixo isso passar, porque tu bem sabe que passa, lembra que a gente roía as unhas e comia balas pra passar a vontade de fumar, é a mesma coisa, eu sei que isso é só uma crise de abstinência, ela vai passar,a gente já teve recaídas demais, chega, porque era isso que eu queria te dizer, porque te tirar da minha vida tá sendo assim, eu sinto como se tivesse um vazio na rotina, eu tô aos poucos achando com o que preencher, mas eu sei que consigo, eu sei que é ruim ouvir isso, mas eu ouvi coisa pior por muito mais tempo, é, te tirar da minha vida tá sendo bem assim, como se eu estivesse me livrando de um hábito ruim.

sábado, 5 de setembro de 2009

Reflexo

Saudade de quando
Eu fui e voltei
Ou não fui e fiquei
Me olho no espelho
Me vejo assim
Sem eira nem beira
Ou me vejo assado?
Cheio de certezas?

É vida ou morte?
Que veloz me atropela?
Que contradição
Dizer sim quando é não
Sorrir ao sofrer
Machucar pra valer.
Medo de saber
O que nunca soube
Medo de ouvir
O que sempre se ouve.

Eu olho no espelho
E não reconheço
Fui sempre assim?
Só indecisão?
Pra cá ou pra lá?
Falar ou calar?
Me olho no espelho
De fato eu conheço
E o que eu vejo
É só confusão.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

To Dad, with love

I feel you next to me in every Lighthouse Family song
And we would listen to them in our way home.
I feel I am a little bit of you in every destroyed toothbrush
And I just wonder how we could be so unconsciously alike.
I feel you are alive in every beat of my heart
For I will forever keep the remembrances warm.
It is not fair that you were taken away from me
And I try my best not to blame you for that.
It is just so painful I could not show you how much I cared
I hope you understand I had been taken by a childish pride.

No matter how hard I try, there are no words that can describe
The sorrow I am feeling inside.
There is a stream of tears dropping from my eyes and I do not know why
I have never missed you the way I miss you tonight.

domingo, 30 de agosto de 2009

Funeral

Eu estava ali imóvel sentindo-me completamente impotente. Ela andava pelo quarto vestindo uns jeans que revelavam seus quadris estreitos e suas pernas finas e, naquele momento, estava parada na frente do espelho escondendo a sua pele intocada com blush e batom. Desfilava com um par de sandálias cujos saltos disfarçavam a sua baixa estatura e as longas unhas pintadas de vermelho seguravam uma caneta que imitava um cigarro. Eu queria chorar, gritar, a fazer acordar desse pesadelo que se revestia em sonho, porém eu era incapaz. Ela impiedosamente me sepultou no fundo de um armário e eu sofria. Sofria não pela minha curta existência, mas porque sabia que a infância que ela precocemente enterrava não poderia nunca mais voltar à vida.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Ex

Por mais diferentes que sejam as pessoas, a verdade é que os relacionamentos se repetem. Quem nunca se pegou comparando o(a) atual com o(a) ex? Ou ainda,quem nunca viu que as pessoas cometem erros parecidos? Homens e mulheres têm comportamentos padrão. Seja isso causado por fatores culturais ou pelo instinto natural de cada sexo, o que importa é que homens são insensíveis e que mulheres se preocupam e morrem de raiva sim se eles não percebem o novo corte de cabelo.
Eu como mulher, posso manifestar um pouco das nossas peculiaridades não tão peculiares. Um assunto sempre vai se repetir, vem namoro, vai namoro e é o triste fato de que o seu namorado tem uma (ou mais, aquele desgraçado) ex-namorada. Já ouvi depoimentos de amigas próximas, de outras nem tão próximas, já vi dentro da minha casa e a opinião é geral: a ex deve morrer. Claro, não desejamos sinceramente que ela morra, até porque a culpa seria muito grande. Queremos apenas que ela seja abduzida ou que ela fique bem gorda e feia. Pior que comparar o próprio namorado com o ex, é se comparar com a ex dele, mas isso é inevitável. E, enquanto o homem se preocupa se o teu ex era melhor na cama que ele, a mulher se preocupa se a biatch recebeu do dito cujo a mesma dedicação ou se ela usa o mesmo manequim.
O namorado vai sempre insistir que tu é mais bonita que ela, que ele te ama mais, que ela não significou nada e várias outras besteiras. Isso vai entrar por um ouvido e sair pelo outro, por mais que ele repita milhões de vezes, porque, convenhamos, nós queremos mesmo é vasculhar a vida que o namorado tinha antes de nos conhecer. Existem procedimentos para que isso seja feito da maneira mais convencional e, por isso, menos suspeita, uma vez que toda mulher já fez o absurdo, talvez movida pelo natural instinto de competição ou pelo fantasma da ex materializado numa forte onda de ciúme:
- Fuxicar na vida virtual da ex: seja sozinha suando frio ou rodeada de amigas, é natural fazer a busca pelo orkut da criatura. O objetivo é encontrar fotos que mostrem que ela é uma loser e que não desfruta de nenhum dote físico. Assim, tu pode pensar que ela foi apenas um erro que o teu namorado cometeu.
- Fuxicar nas coisas do namorado: pode ser no computador ou na gaveta de meias. O objetivo aqui é encontrar cartas, fotos, presentes, qualquer coisa que esteja relacionado ao namoro dos dois. O melhor é não encontrar nada e ver que ele jogou tudo fora porque ocupava muito espaço.
Foi possível verificar que as táticas envolvem fuxicar muito, fazer das tripas coração para que provemos para nós mesmas que somos melhores, que a ex é apenas um percalço, uma pessoa que poderia não existir, é verdade, mas que existe para que saibamos que somos melhor que alguém. O problema, entretanto, é apelar para esses procedimentos desesperados e não alcançar o objetivo. Isso é de fato terrível porque ela pode ser manequim 36, ter belos olhos claros, ser super popular e super simpática. Esses últimos itens podem ser descobertos caso vocês vivam o infortúnio de conviver com as mesmas pessoas. Aí a vontade é de arrancar os cabelos e chorar.
Não querendo parecer vendedora de creme para celulite, só posso nesse momento dizer que sim, há uma luz no fim do túnel. Existem vezes que deixamos nossos instintos femininos vencerem a racionalidade, mas esse é o caso de repensar um pouco as nossas atitudes:
- Wear your heart on your sleeve: se é impossível não fazer a big deal out of it, é melhor falar francamente com o namorado: talvez sabendo mais sobre o que ele passou, vocês encontrem coisas em comum em seus passados que levem a bons motivos para estarem um com o outro e não com seus exes.
- Let it go and move on: não é saudável preocupar-se demais com a ex. Isso deixa de ser divertido no momento em que passa a interferir no cotidiano do casal. Take a deep breath e lembre-se: viva a vida de vocês e não a vida que eles tiveram juntos.
- Acreditar nele: why not? : parece loucura, mas ele pode estar sendo sincero! Pode ser que ela seja muito linda e sei lá que mais, mas ele te acha mais linda, mais interessante, mais tudo. Acredite: pode ser a mais pura verdade!